quinta-feira, outubro 20, 2005



                E foi o que me deixou...



10 de outubro de 2005



[...], uma forma de ser em comum, de tudo se fundir num destino igual para as contas gerais, [...], qualquer coisa assim a fazer no incognoscível. Não foi coisa que eu soubesse logo nem depois nem depois. No fim. O que é importante não se sabe logo quando se sabe, [...]. Fica em nós, leva tempo e tempo a dar-nos a volta ao sangue e ao barulho que nos ensurdece e não nos deixa ouvir. E só então, enfim, a gente acaba por saber. Tu às vezes perguntavas-me:

- Porque é que estás sempre a lembrar o que passou?


Era isso. Eram coisas que tinham ficado a levedar. As coisas que ainda não tinham vindo ao de cima com a verdade que estava nelas. As que só então eram visíveis, como mesmo o que é visível e não se vê.

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra




No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade, porque cada amigo tem o seu lugar e não podemos substituí - lo. Se perdes um amigo, o seu vazio nunca será substituído por outro, fica para sempre. Por isso, de certo modo, convive sempre contigo. A amizade é uma paixão, e eu sinto para com ela uma grande disponibilidade.


António Lobo Antunes